SEJA SINCERO
Na hora do adeus, ter uma boa conversa com o chefe é fundamental. Um papo que deve ser pautado pelo respeito, honestidade e clareza de objetivos. Foi assim com a publicitária carioca e ex-gerente de comunicação da Telemar Daniela Boclin, de 33 anos. Satisfeita com o trabalho, mas decidida a pedir as contas para rever a carreira, ela foi promovida em agosto de 2006. No dia seguinte, resolveu abrir o jogo. "Expliquei ao meu chefe que aceitar a promoção não seria bom nem para mim nem para a empresa, que não merecia ter um funcionário com um pé dentro e outro fora." A atitude de Daniela se encaixa perfeitamente em outra regra importante para quem se demite, que é chamar a responsabilidade para si. "Aquele que está insatisfeito deve direcionar a conversa para os seus próprios sentimentos e explicar que não se adaptou, ou acha que já não atende mais às expectativas da companhia", afirma Moacir Carlos Sampaio Silva, coordenador da pós-graduação em psicologia social das organizações do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Se o profissional for surpreendido com uma boa proposta, é o caso de enfatizar os pontos fortes do atual emprego, mas destacar que tem possibilidades mais interessantes na nova empresa. E preparar a partida. "Marcará pontos com o futuro chefe o funcionário que se mostrar responsável, comprometido com a organização anterior." Disso a psicóloga paulista Fernanda Franzini, de 25 anos, entende bem. Generalista de RH do Citigroup desde novembro de 2006, ela pediu um mês à empresa para se desligar da Avon, na qual trabalhava antes como analista de RH. "Estava feliz lá, ninguém esperava a minha saída", afirma Fernanda, que diz ter trocado de patrão pela chance de crescer na carreira e ocupar uma posição mais sênior. "Não saí do dia para a noite: apresentei os projetos a quem ficou no meu lugar e tive o cuidado de conversar até com os fornecedores."
Nesse jogo de negociações, há quem tente levar vantagem. O que os espertinhos não sabem é que as trapaças podem virar mico. "Alguns jovens profissionais nem sabem se querem mesmo mudar de emprego, mas participam de seleções para tentar leiloar o próprio passe e assim obter um aumento de salário", diz Fernando de Castro, gerente da Michael Page, consultoria de recrutamento especializada na média e alta gerências, em São Paulo. Nesse caso, se as reais intenções do candidato forem descobertas, é grande o risco de ele queimar o próprio filme com uma organização que poderia render boas oportunidades no futuro. Entre os mais velhos, é comum o truque de esconder determinados benefícios e só colocá-los na mesa quando a empresa interessada em contratá-lo apresenta a proposta. "Aí surgem bônus de retenção e planos incríveis de previdência privada, o que compromete a seleção na reta final e gera desconfiança." Moral da história: seja transparente com todos os lados envolvidos na transição.
TRACE UM PLANO
Quem faz tudo certo na hora da demissão e tem várias experiências ao longo da carreira tem seus horizontes profissionais ampliados. Mas não convém abusar do troca-troca. Conforme estimativa da Michael Page, os executivos brasileiros permanecem, em média, três anos na mesma empresa, enquanto na Europa esse número sobe para cinco. "As companhias ficam de olho em quem migra muito de um emprego para o outro", diz Fernando. Quem já refletiu sobre o assunto e chegou à conclusão de que é hora de mudar deve elaborar um plano de saída. E levá-lo a sério. "Seu manual de ação deve ter metas, missão e objetivos", afirma Stella Angerami, sócia-diretora da Counselling by Angerami, em São Paulo.
Um dos primeiros pontos dessa estratégia é identificar o que você tem a oferecer ao mercado, fazer uma espécie de inventário, com características fortes e lacunas a serem preenchidas, como aquele curso adiado há meses. Está tudo registrado? Então comece a procurar onde estão as oportunidades que lhe interessam. "É nesse momento que sua rede de contatos é avisada da intenção de mudança", afirma Jacqueline Resch, sócia-diretora da Resch Recursos Humanos, no Rio de Janeiro. Por fim, é preciso estar preparado para as novas oportunidades que podem surgir a partir daí. "Manter os projetos em dia e garantir que a equipe está bem treinada são atitudes que ajudam a sair bem da empresa, fechando um ciclo e começando outro."
DO OUTRO LADO DA MESA
Você é o chefe e os pedidos de demissão rondam a sua equipe? Veja como agir em cada situação:
1. O profissional que você estava pensando em promover pede demissão.
É possível que você não tenha deixado claro para aquele funcionário o quanto ele era importante. Trocar de emprego é uma escolha dele, mas não desperdice essa última chance de mostrar que perspectivas ele tem na empresa.
2. Você está quase demitindo um funcionário e descobre que ele está negociando com outra companhia.
Mantenha sua decisão independente de qualquer outra coisa. Se achar que deve demitir, vá em frente. Esperar uma demissão conveniente é mesquinho.
3. Aumenta o turnover no seu grupo: um número considerável de pessoas deixa a equipe, por vontade própria, em seis meses.
Alguma coisa está errada. A falha pode estar no gestor, na equipe ou no processo de trabalho. A única saída é procurar entender o que está acontecendo. Se a sua reação for passiva, é sinal de que o problema está em você.
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